"Longe é um lugar perto que se chega com paciência."
(Fábio Ibrahim El Khoury)

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Krishnamurti: Podem as imagens chegar ao fim, e o pensamento olhar para tudo na vida de novo?


Krishnamurti



Podem as imagens chegar ao fim, e o pensamento olhar para tudo na vida de novo?

É possível observar sem o pensador? Eu olho para tudo com uma imagem, com um símbolo, com memória, conhecimento. Olho para meu amigo, para minha esposa, meu vizinho, o chefe, com a imagem que o pensamento construiu. Olho para minha esposa com a imagem que tenho dela, e ela me olha com a imagem que tem de mim: a relação é entre estas duas imagens. Este é um fato, não é uma invenção de minha parte, é um fato! O pensamento construiu estes símbolos, imagens, ideias. Posso eu olhar, primeiro, a árvore, a flor, o céu, a nuvem, sem uma imagem? A imagem da árvore é a palavra que aprendi dando certo nome à árvore, diz sua espécie e lembra sua beleza. Posso olhar àquela árvore, àquela nuvem, àquela flor, sem pensamento, sem a imagem? Isso é bem fácil de fazer, se você já fez. Mas posso eu olhar sem imagem para um ser humano do qual sou íntimo, que considero como esposa, marido, filho? Se não posso, não existe relação verdadeira: a única relação é entre as imagens que nós dois temos. Então, posso olhar a vida, as nuvens, as estrelas, as árvores, o rio, o pássaro voando, minha esposa, meu filho, meu vizinho, toda esta terra – posso olhar tudo isso sem a imagem? Embora você tenha me insultado, embora tenha me ferido, embora tenha dito coisas sórdidas sobre mim ou me elogiado, posso olhar para você sem a imagem ou a memória do que você me fez ou me disse? Vejam a importância disto, pois apenas uma mente que retém as memórias de ferida, de insulto, está pronta para perdoar se ela tem essa inclinação de fato. A mente que não fica armazenando seus insultos, os elogios que recebe, não tem nada para perdoar ou não perdoar; e, assim, não há conflito. O pensamento criou estas imagens, interiormente e exteriormente. Podem as imagens chegar a um fim, e o pensamento olhar tudo na vida de novo? Se você puder fazer isto, descobrirá que sem seu esforço consciente, deliberado, para mudar, a mudança aconteceu, uma mudança radical. A maior parte das pessoas é ambiciosa; elas querem ser alguém: autores, pintores, homens de negócios ou políticos. Sacerdotes querem ser arcebispos. O pensamento criou esta sociedade e vê a vantagem de se tornar poderoso, dominante, uma pessoa importante, o que só acontece pela ambição. O pensamento criou a imagem pela observação do homem no poder e quer o prazer de possuir uma grande casa, ter um retrato nos jornais e todo o resto. Pode-se viver neste mundo sem ambição, sem a imagem do prazer que o pensamento criou? Pode-se funcionar tecnologicamente, externamente, sem este veneno da ambição? Isto pode ser feito, mas só é possível quando compreendemos a origem do pensar e compreendemos realmente, factualmente, a irrealidade desta divisão entre o observador e o observado. Aí podemos prosseguir, porque, então, a virtude tem um significado totalmente diferente. Não é a virtude moral de uma sociedade horrível, corrupta, mas a virtude que é ordem. A virtude, como a humildade, não é uma coisa para ser cultivada pelo pensamento. O pensamento não é virtuoso; ele é burguês, mesquinho, e o pensamento não pode, possivelmente, compreender amor ou virtude ou humildade.


- Krishnamurti, Collected Works, Vol. XVI,169,Choiceless Awareness

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