"Longe é um lugar perto que se chega com paciência."
(Fábio Ibrahim El Khoury)

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Krishnamurti - Reflexões 1





O Lampejo de Compreensão

Eu não sei se você notou que há compreensão quando a mente está muito quieta, mesmo por um segundo; há o lampejo da compreensão quando a verbalização do pensamento não existe. Apenas experimente isto e verá por si mesmo que você tem o lampejo da compreensão, essa extraordinária rapidez do insight, quando a mente está muito imóvel, quando o pensamento está ausente, quando a mente não está oprimida por seu próprio ruído. Então, a compreensão de qualquer coisa - de um quadro moderno, de uma criança, de sua esposa, seu vizinho, ou a compreensão da verdade, que está em todas as coisas - só pode chegar quando a mente está muito imóvel. Mas tal imobilidade não pode ser cultivada porque se você cultiva uma mente imóvel, não é uma mente imóvel, é uma mente morta. Quanto mais você está interessado em alguma coisa, quanto mais sua intenção de compreender, mais simples, clara, livre está a mente. Então a verbalização cessa. Afinal, pensamento é palavra, e é a palavra que interfere. É a tela das palavras, que é memória, que intervém entre o desafio e a resposta. É a palavra que está respondendo ao desafio, o que chamamos de intelecção. Então, a mente que fica tagarelando, que fica verbalizando, não pode compreender a verdade - verdade na relação, não uma verdade abstrata. Não existe verdade abstrata. Mas a verdade é muito sutil. Como um ladrão na noite, ela chega obscuramente, não quando você está preparado para recebê-la. 



O intelecto corrompe o sentimento

Você sabe, existe o intelecto, e existe o puro sentimento - o puro sentimento de amar alguma coisa, de ter grandes, generosas emoções. O intelecto raciocina, calcula, pesa, compara. Ele pergunta, "Isto vale a pena? Vai me beneficiar?" Por outro lado, existe sentimento puro, o extraordinário sentimento pelo céu, por seu vizinho, sua esposa ou marido, por seu filho, pelo mundo, pela beleza de uma árvore e assim por diante. Quando estes dois chegam juntos, há a morte. Compreende? Quando o sentimento puro é corrompido pelo intelecto, há mediocridade. É isso que a maioria de nós faz. Nossas vidas são medíocres porque estamos sempre calculando, nos perguntando se vale a pena, que proveito terei, não só no mundo do dinheiro, mas também no dito mundo espiritual: "Se eu fizer isto, conseguirei aquilo?" 



Todo pensamento é distração

Uma mente que é competitiva, presa no conflito de vir a ser, pensando em termos de comparação, não é capaz de descobrir o real. Pensamento-sentimento que é intensamente vigilante está no processo de constante autodescoberta - em que a descoberta, sendo verdadeira, é libertadora e criativa. Tal autodescoberta gera liberdade da ganância e da complexa vida do intelecto. É esta complexa vida do intelecto que encontra gratificação no hábito: curiosidade destrutiva, especulação, mero conhecimento, capacidade, mexerico e assim por diante; e estes obstáculos impedem a simplicidade da vida. Um hábito, uma especialização confere esperteza à mente, um meio de focar o pensamento, mas não é o florescimento do pensamento-sentimento na realidade. A liberdade da distração é mais difícil já que não compreendemos completamente o processo de pensar-sentir que se tornou nele mesmo um meio de distração. Estando sempre incompleto, capaz de curiosidade especulativa e formulação, ele tem o poder de criar seus próprios obstáculos, ilusões, que impedem a vigilância do real. Assim ele se torna sua própria distração, seu próprio inimigo. Como a mente é capaz de criar ilusão, este poder deve ser compreendido antes de poder ficar totalmente livre das próprias distrações por ele criadas.



Pensamos que somos intelectuais

Muitos de nós desenvolveram capacidades intelectuais, as ditas capacidades intelectuais, que realmente não são capacidades intelectuais de fato; nós lemos muitos livros, cheios de coisas que outras pessoas disseram, suas muitas teorias e ideias. Consideramos que somos muito intelectuais se citamos inumeráveis livros de inumeráveis autores, se lemos muitas variedades de livros, e temos a capacidade de correlacionar e expor. Mas nenhum de nós, ou poucos de nós, têm concepção intelectual original. Tendo cultivado o assim chamado intelecto, toda outra capacidade, todo outro sentimento, foi perdido e temos o problema de como trazer um equilíbrio para nossas vidas de modo a ter não só a mais elevada capacidade intelectual e sermos capazes de raciocinar objetivamente, ver as coisas exatamente como elas são, não oferecer continuamente opiniões sobre teorias e códigos, mas pensar por nós mesmos, ver por nós mesmos muito proximamente o falso e o verdadeiro. E isto, me parece, é uma de nossas dificuldades: a incapacidade de ver, não só coisas externas, mas também a vida interna que a pessoa tem, se é que tem de fato.


Krishnamurti, J. Krishnamurti, The Book of Life (O livro da vida)

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